domingo, dezembro 27, 2009

da arte de sentir

tinha os olhos de quem pedia lápis de cor emprestado pra disfarçar a dor que lhe atingia toda vez que resolvia desenhar. sabia que o tom exato iria alcançar misturando duas ou mais cores. rabiscava o papel, amassava quando não dava certo a mistura, já que os lápis deviam ser aquarelados para enfim formar o efeito desejado. o espiral do caderno perfurava agora a mão direita. mas não doía. mal sabia desenhar, confessava a si mesma. ah, melhor escrever. poesia pra que? pouco importa, eu gosto mais do que não desenho que daquilo que mal escrevo, afirmava agora. imaginava paisagens, gestos, sons, mas não conseguia atingir o tom exato. não era fácil atingir a cor da voz que lhe sussurrava agora calmamente. tom sobre tom. talvez fosse isso. e essa ponta, tinha que quebrar agora mesmo? estilete até serve quando se tem pulso firme. não lhe era o caso. girava o olhar ao redor, onde poderia estar... achei! como se o apontador sentisse o deleite das amarguras derramadas pelas pontas afiadas. e agora que ficou tudo borrado é que parece fazer sentido. o fato é que isso ela já sentia, há tempos...

Um comentário:

fabio jardim disse...

com palavras que vc fez um quadro... daqueles coloridos que a gente gosta de ver.