domingo, dezembro 27, 2009

da arte de sentir

tinha os olhos de quem pedia lápis de cor emprestado pra disfarçar a dor que lhe atingia toda vez que resolvia desenhar. sabia que o tom exato iria alcançar misturando duas ou mais cores. rabiscava o papel, amassava quando não dava certo a mistura, já que os lápis deviam ser aquarelados para enfim formar o efeito desejado. o espiral do caderno perfurava agora a mão direita. mas não doía. mal sabia desenhar, confessava a si mesma. ah, melhor escrever. poesia pra que? pouco importa, eu gosto mais do que não desenho que daquilo que mal escrevo, afirmava agora. imaginava paisagens, gestos, sons, mas não conseguia atingir o tom exato. não era fácil atingir a cor da voz que lhe sussurrava agora calmamente. tom sobre tom. talvez fosse isso. e essa ponta, tinha que quebrar agora mesmo? estilete até serve quando se tem pulso firme. não lhe era o caso. girava o olhar ao redor, onde poderia estar... achei! como se o apontador sentisse o deleite das amarguras derramadas pelas pontas afiadas. e agora que ficou tudo borrado é que parece fazer sentido. o fato é que isso ela já sentia, há tempos...

quarta-feira, dezembro 23, 2009

do avesso do verso

se bem me lembro
é sempre daquele jeito
o ouvido cheio de agonia
o coração perdido em mágoa
e enquanto aguardo
me calo depois desse dia nublado
então.

terça-feira, dezembro 22, 2009

das férias e do feriado

longa a estrada:
o caminho acaba
sem que sobre asfalto.






"e disso tudo nasceu o amor..."

segunda-feira, dezembro 21, 2009

da vizinha no bar

e ele pensava
em como ela era bela
e lembrava sempre
de como ela corria
e passava por aqui
quando lhe via de longe
e quando vinha pra perto
lá vai ela outra vez
menina apressada
dos passos miudos
lá vem ela, ainda bem
de repente
desapareceu
parou
desaconteceu
só não desfaleceu
porque a casa dela
era aquela ao lado


- viu?





"você não me diz nada
mas eu digo pra você..."

sábado, dezembro 05, 2009

quarto dezembro

no meu quarto o dezembro ficou
um pouco mais de três vezes trezentos e sessenta e cinco dias...
em noites sem estrelas, em setembros, agostos, janeiros, marços,
sais, faróis, quinzes, carnavais, férias.
o mês doze, um pouco mais doce, embora comece com dezena,
agora entendo porque não pode ser mais dez:
cinco mais cinco não resulta no décimo segundo mês do ano.
às três da tarde marco o quarto dezembro preso aqui.
se é que alguém me entende...



domingo, novembro 29, 2009

Carta ao carteiro

Querido entregador de cartas,


Até agora me recordo do teu sorriso simpático. Embora não estivesses em teu horário de trabalho, ontem fiquei esperando que me entregasses qualquer coisa, nem que fosse uma carta de cobrança. Acho que é força do hábito. Mas sorristes pra mim e eu ganhei o dia.

Talvez não saibas a importância que tens e a alegria que forneces quando pontualmente passas todos os dias e entregas o que te foi designado. Ao menos para mim é suficiente tua presença rápida e diária. Ao te ver passar de bicicleta ou mesmo caminhando por estas ruas quentes, sinto vontade de acenar para ti ou te chamar para conversar, sobre o clima, sobre as pessoas que visitas ou sobre o tempo em que as pessoas se correspondiam mais através de palavras escritas em papeis.

Quando me cumprimentas ou quando somente passas por mim, fico imaginando se não recebes nenhuma correspondência. Quando recebes, penso em como deve ser separar a própria cartinha ou mesmo a conta mensal. Queria eu poder ter a sorte de separá-las ao menos uma vez e te entregar pessoalmente, só para que entendesses como me sinto e para tentar imaginar como deve ser o trabalho que fazes.

Tenho pensado bastante em ti, aliás. Sempre calado e sozinho, sempre distante e ao mesmo tempo tão presente. Algumas vezes te vejo passar de longe à noite. Sinto vontade de conhecer melhor tua família, saber do que gostas. Já sei que viestes da praia.

Então lembrei que o poeta era teu amigo. Lembrei que andavam juntos pela areia, conversando e trocando poemas amigos. E eu senti inveja. E quis poder te escrever um poema, te dedicar um instante do meu corrido tempo só para demonstrar meu afeto. E talvez até esperar por uma resposta tua, embora eu já imagine que tampouco irás me responder.

Agora me resta a espera pelas próximas correspondências, as mesmas cobranças... e me anima a ideia do reencontro, ainda que mal saibas quem sou.

Por fim, quero lembrar-te que, por mais que eu não esteja sempre por perto, ficarei a tua espera quando da minha presença. Se precisares e se assim confiares, tenho para ti confidências que nenhuma correspondência mereça guardar.

Abraços e sorrisos meus para ti.

quarta-feira, outubro 28, 2009

conversas [s]em lata

coleciono segredos
conservo boas conversas
e para meu alívio
começo uma nova viagem
compro castanhas
vendidas em embalagens
nada recicláveis
sinto o cheiro bom dos cajus
enquanto os velhos
segredos
viajam através das janelas
comigo



e eu só preciso dum cafezinho...



guarde um pouco do pó
pra mim.

domingo, outubro 25, 2009

não, não, não

"não me poupe
tudo que eu disser
você pode usar contra mim
seja o que deus quiser
como o diabo quer."


#ludov (L)

terça-feira, outubro 20, 2009

amor roxo, à primeira vista


"ali vagava uma nuvem lilás querendo emaranhar as outras branquinhas.

tiquira querendo ser tequila é fogo."


entre aspas, escrito originalmente numa sexta-feira, 11 de setembro de 2009, às 17:13, em um outro blog perdido por aí...
foto tirada por mim mesma, numa sexta-feira, 9 de outubro de 2009, em belém, pará.
na foto, o parense andré andrade e a maranhense silvia araujo.

segunda-feira, outubro 19, 2009

momento tim maia.

procurando motivos pra ir embora.

já os encontrei.

segunda-feira, setembro 21, 2009

"As nuvens brancas
Se escureceram
E o nosso céu azul
Se transformou
O vento carregou
Todas as flores
E o inverno da saudade
Começou..."



hoje ouvindo Bethania cantar "As flores do jardim de nossa casa".


amanhã, primavera, eu longe daqui...

sexta-feira, setembro 18, 2009

da última vez em que eu banhei no mar
uma onda passou por mim e me disse baixinho:

"you've got to keep thinking
there's so many sinking
now you gotta keep thinking
you can make it through these waves
acid, booze, and ass
needles, guns, and grass
lots of laughs, lots of laughs..."

cantei debaixo d'água.


você pode continuar pensando: aqui está uma música para você. eu sei que ela poderia ter me dito isso naquela noite gelada. somava um chá na caneca branca dela e um cachecol colorido em meu pescoço. vai ser difícil voltar pra lá de novo. o calor que aquela cidade tem. o mar era o daqui. o fato é que não devem ser só as cores e as crianças que me mantêm viva... antes fossem apenas elas.

e a música dela não me cansa.

vou ali me afogar.



quinta-feira, setembro 17, 2009

momento azul da manhã:
ela limpa os olhos
enxuga as lágrimas e o suor
lhe revejo num video antigo
logo surge uma vontade
de roer minhas unhas rubras
de tomar aquela tiquira na feirinha
de fechar os negros e dormir
ou cobrir o dourado lá de cima
me revisto de cores
misturas que oscilam
entre um bom vinho tinto e a cerveja quente
releio as linhas dela
e logo me entendo:
é verde o que sinto.






sobre aquela velha camisa desbotada...

terça-feira, setembro 15, 2009

canta com teu chiado,
mas canta bem baixinho só pra mim
em versão vinil 1976.

sexta-feira, setembro 11, 2009

.

.

.

yo no sé bien, pero en septiembre tiene algo que hace sentir bien..

.

.

.

quinta-feira, setembro 10, 2009

ah, esse desvairado das manhãs
sol doentio do meio-dia
escaldando minhas madeixas...

listinha de necessidades

precisa-se de:


um bom lugar para passar uns dias
um bom ouvinte pra passar as horas
um bom vinho pra degustar com queijo
um bom colo amigo
uma boa praia pra poder mergulhar sem medo
uma boa comida que não me faça temer engordar
uma boa desculpa pra não fazer nada
uma boa noite ininterrupta de sono


um bom dia a todos.

terça-feira, setembro 01, 2009

blue sky

meu céu cintilou hoje.
tinha cheiro de flor, som de banzeiro e calor do sertão.
vazio de azul e cheio de si.

quinta-feira, julho 16, 2009

enquanto gelam-se os pés, o coração mantém-se pré-aquecido.

terça-feira, maio 12, 2009

súplica

claro poema relido hoje à noite,
iluminai vossos resquícios
que vagueiam cantando
em minha multidão de sussurros,
fazei com que os versos repetidos
ressoem feito orquestra
e socorrei esta alma aflita
que te escreve deformadamente.

segunda-feira, maio 11, 2009

sobrava

a ébria
e solene
sombra
de quem
sozinha
soletrava
em silêncio:

s-o-l-i-d-ã-o
ontem choveu
a tardinha.
do fundo da garrafa

v
e
r
t
i
c
a
l
sobrava uma gota
e caía.

mentira minha.
fazia sol
e não havia garrafa alguma...

terça-feira, maio 05, 2009

amor com amor se paga.

porque seria impossível a vida sem amá-la.
porque eu tenho muita sorte de tê-la perto.
porque nos melhores momentos é ela quem tá comigo.
porque nos piores sufocos ela também me acolhe.
porque foi ironia o destino não nos ter dado a mesma mãe.
porque do nosso amor a gente é quem sabe.
porque só ela é mais sentimental que eu. =p
porque poesia e músicas compartilhadas nos preenchem sempre.
porque explicações sobrariam neste espaço.




amo, amo, amo.

quarta-feira, abril 15, 2009

do samba e da chuva

tão raro quanto vê-lo
é eu tocar bem um pandeiro
daí o melhor que faço
é sambar
vou sambar, sambar demais
debaixo da chuva
e esperá-lo de novo
nos carnavais que virão
e bem no final
do ano que vai
e da chuva que vem.


"o meu caso é viver bem, com todo mundo e com você também..."
ai, ai, jorge ben (L)

segunda-feira, março 30, 2009

tudo acaba no buraco

confusão

cento e cinquenta minutos
de espera
em vão

na fila

todos esperavam
para ver
o que acontecia

no espetáculo

que tinha nome
mais que inusitado:
agora eu sei

no buraco

tudo se acabava.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

das voltas que o mundo dá

na falta de palavras
minha tontura não conta.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

em anos-luz de ingratidão
ressoaram os timbres finos
daquela viola imaginária.
na verdade algo se erguera
enquanto o balanço marítimo daquelas ondas
discretamente me confundia
- ai, e o que são estes teus cabelos...
agora que te vais espero por estas
vinte e sete noites mal dormidas
que antecedem nosso reencontro.





and everything is green and submarine...