domingo, setembro 23, 2007

Segundo Setembro

Se todas tuas trocas, teus engodos,
enganos bobos e poemas
ainda fizessem algum sentido,
não escreveria assim, da forma que te digo,
mas com uma idéia levemente diferente
do que poderia ser perder.

Se todos os teus rabiscos, meus destroços,
perdidos pensamentos e falsos dilemas
nem quisessem andar unidos
jamais escreveríamos o que fingidos
meus enlouquecidos devaneios
se encontrariam talvez em teu ser.

Mas se no fim deste enredo
a noite cansada for o que me resta,
guardarei as manchas na roupa
e um tanto do cheiro de fumaça nos cabelos.
E se me encerro na quietude,
é que já não revelo o insondável.




[Andréa, eu e Manu... ontem.]

Três da tarde.


Compras num sábado após o banho. Dinheiro. Uma rápida visita e a companhia. O embarque. Trechos dos dias que lhes antecederam. A paisagem. Meia hora depois, a descida. Mais uma companhia. Na praça movimentada, três almas amigas. Vinho, queijo e trelelê. Uma faca na bolsa. Ajuda para abrir o vinho. Uma pedra. Momento neolítico. Quebra-se uma caneta. Acha-se um caderno. Passeios e fotografias para os outros. Livros e música para nós. Um poema. O sol prestes a se por. A vista para o mar. Da beira, silêncio. Um copo que derrama, uma canção que enlouquece. Há outras pessoas formando suas vidas. Somando somos mais três. Há também uma igreja. Rosas brancas e missa. Mais duas rosas para nós. O vinho perfuma as pétalas. O fogo e o botão. A caminho, uma carona. Um fusca azul. A guiar, um simpático senhor. A reviver, almas imersas em amor. Mais poesia e música. As rosas fazendo sucesso. Puras e bentas, vindas da igreja, agora passeiam em outra praça. O momento tarda enquanto existe. A hora se acalma e nos despede. E a noite nem finda ali.


Três na noite.

com efeito
cometo
meu medo
comendo
de novo
o confeito
do doce
acabado

o som é feito
do bobo
silêncio
-vazio perfeito
da massa
reduzida
ao bolo
assado.



não depende da vontade, já diria o Cortázar...

sábado, setembro 15, 2007

A qualidade dos defeitos

Quem sou eu sem os meus defeitos?
Cultivo-os, pois. Eles são mesmo mais importantes
Que qualquer qualidade que eu possa ter,
são eles que me afastam das pessoas,
E isso é bem mais relevante pra mim que os motivos pelas
quais, porventura, elas possam ser atraídas.

Quem sou eu com os meus defeitos?
Deserdo todos, então. De importantes
prefiro as desqualidades que eu já nem tenho mais,
as pessoas que já não me bastam
e os caminhos que se revelam para mim sem mais motivos
com mais pautas por pedir e degraus de mil graças.




[Andréa L. Costa/ Suhelen P. Aragão]
manhã de 13 de setembro.

quarta-feira, setembro 05, 2007

"oh minha honey..."

Uma pausa, então, para uma elegia. Tal como uma onda violenta num domingo ensolarado o desejo de ser flor na janela talvez um dia volte. Se fosse violeta, eu me elegeria. “Eu, que nunca fui morena,...”, era assim que começaria. Mas e eu, que sempre fui? Sempre fiquei. Só uma música repete no rádio. Começa agora sem pausas. O que me prendia outrora me libertou. Que a sintonia da prosa não mais me queira. E que isso não termine. Sem aplausos.



"sofrimento não é amargura
tristeza não é pecado
- lugar de ser feliz não é supermercado..."

Zeca Baleiro - Piercing

domingo, setembro 02, 2007

Naufrágio

Ilhas desertas ao longe
Navios cargueiros ao leste
Homens ao mar em navios

Navios ao mar com seus homens
Homens desertos e desolados
Ilhas cargueiras em silêncio

Homens cargueiros de saudades
Ilhas ao mar como ondas
Navios desertos de seus homens


[há algum tempo...]