sexta-feira, dezembro 28, 2007

Último Baile do Ano

Ia caminhando por passos largos
com minhas pálpebras baixas e frias.
Junto a mim, a negra luz que cobria
os dias que se tornaram amargos.

Um coração que ainda teima em pulsar
depois de viver a alegria e o pó
ter que voltar a ser de repente um só,
numa valsa eterna, ainda por-se a bailar.

O grande e frio passo agora eu daria
se não fosse por mim a velha alegria
sozinha nesta hora a me acompanhar

deixava a mesma cena por si só contar
o que se fez, a festa da melancolia
porque já sei que a porta nem abriria.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Carta ao dia anterior

Ontem,


jamais quis tanto que o agora fosse o que já foi. Com o mesmo brilho da manhã que se fez tarde ou talvez sem a mesma manha com que se acordou hoje. Talvez se não tivesse escolhido o agora para vingar a minha fome... Ou se ainda fosse forte aquela paz, como a sede presa num copo d'água. Sabe aquela luz intensa da noite que não há mais? Pois é. Ela poderia muito bem ainda estar presente como o ranger de dentes que arde com a dura dor deste instante. Poxa... Não sei se é pior porque ainda vejo aquele cartaz em que estava escrito teu sorriso. E vejo de várias cores! Mas Ontem, eu queria ver da cor que eras, da cor que sempre fostes... Esta mistura coloridamente confunde. A certeza vista com os olhos da dúvida enche meu coração de água. Tentei até permanecer dormindo. De repente eu acordaria de novo antes desse dia. Aí as coisas seriam de novo de uma só cor. Mas meu sonho meio preto e branco foi se colorindo, me confundindo... Já enxergava margaridas saltitando em pouco tempo misturadas em risadas, lírios conversando com violetas em pastagens róseas. E era triste, apesar de tudo. Os sonhos que me recordo sempre trazem lembranças tuas. Acho que por isso que, embora acordar nem sempre seja triste, pra mim tem sido. Aceitar essa condição de seguir em frente, esquecer que há mágoa e sentir saudade tortura. Mas ainda assim conforta. E os dias que virão, por mais férteis que sejam, por mais alegres e prósperos ou cheios de esperança, vou continuar achando maravilhosas essas melodias diferentes, essa dor que maltrata e alivia, essa mesma nuvem que implode na minha memória. Porque hoje é tudo o que eu tenho do que foi, Ontem. E isso não basta. Mas também não cura. Então espero que essas coisas que queres só para ti fiquem por aí mesmo. E se insistires em me procurar, por favor, faça-o só quando eu estiver dormindo.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

.

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após o almoço a moça dorme.

ao moço a moça pois adormece.

.

.

domingo, dezembro 09, 2007

quinta-feira, novembro 29, 2007

dentro da nudez existe algum poema.
fora, a timidez ainda se inibe num espaço.
o que me flui, nem tem lugar pra se opor
e o que me dói sai pela porta ao lado.
em minha miudez hoje, então, me calo.

terça-feira, novembro 27, 2007

parabéns pra você!!!


e hoje é o dia
o dia mais que festa
a festa mais que bela
a bela amada do amigo
o amigo mais que lindo
o lindo mais que dia
mais que dia mais feliz
alegres almas a comemorar
a sempre festa, sempre companhia
dos momentos infindáveis
a sempre alegria, sempre é esta
é só ele, ele é sempre
não me canso, não dá nó,
felizes dias, sempre,
sempre e só!!!





tudo de bom, sempre, então!
^^


das gotas já nem orvalho mais
apenas ouço o leve passo
insistente e sem muito gosto
de tudo que não me apraz
embora saiba que compreendia
de que lado se perdia o meu oposto

[e o céu nublado mostrava seu enredo
eu que antes tinha medo
hoje só esqueço de falar.]

quarta-feira, novembro 21, 2007

"alegria não tem grife"

era o mesmo céu, o mesmo azul
a mesma forma de ver o mar
a nuvem vermelha da estrada
era a forma cintilante do dia findar
a mesma formiga que pisavam no chão
o som agudo da matraca do lado de lá
foi o mesmo amigo a reencontrar
a brilhar no céu a mesma estrela
a antiga música a se fazer ninar
os artifícios coloridos da nova paixão
foi naquela vez que estive por lá
os mesmos conflitos e medos a enfrentar
a voz na garganta já bem apertada
a mesma entrega nos braços da escuridão
o mesmo vôo das flores colhidas sem mal
só que a vez agora era dela
e era um dia já nem tão amarelo
mas era a mesma rima inadequada.

terça-feira, novembro 13, 2007

Acreditas?

A cada perda, a cada desengano, costuma-se deixar de acreditar. E eu que achava que não acreditava mais em quase nada, ainda acredito em muita coisa. Acredito como quem corre desesperadamente atrás de um ônibus e ao se aproximar o ver partir. Acredito como quem espera a chuva no mês mais quente do ano e nem pode vê-la cair na madrugada. Acredito como quem vê a menina que passa pedindo uma boneca num sábado de manhã na rua, de porta em porta. Acredito como quem há alguns anos esperava a canção favorita tocar na rádio pra poder gravar numa fita cassete. Acredito da mesma forma com que as moças acreditam poder pegar o buquê da noiva após o lindo casamento. Acredito como quem torce por um time de futebol na zona de rebaixamento e vê seu time subir inúmeras posições na tabela. Acredito como quem teme o assalto e que acha que será assaltado a qualquer instante, embora o assaltante nunca tenha aparecido. Acredito como quem estuda o ano inteiro pra fazer uma prova de vestibular, não consegue aprovação e no ano seguinte tenta novamente. Acredito nos casais que se amam e não escondem, da mesma forma que acredito na sinceridade silenciosa dos que preferem se reservar. Acredito nas palavras não ditas, nas benditas, nas mal-ditas e principalmente nas ditas. Acredito também no silêncio ou nas vozes que perduram num olhar. Acredito no olhar. Acredito no sorriso contido e na gargalhada sonora, na lágrima sofrida e principalmente nas lágrimas escondidas. Acredito na força que se adquire a cada desilusão e acredito mais ainda na força da reconciliação. Acredito na poesia que se encontra numa frase e no texto que se faz poema. Acredito nos poetas. Acredito nos reencontros casuais, em telefonemas inesperados e em festas surpresas. Acredito e admiro isto e outras coisas, da mesma forma que desconfio. E ainda assim, acredito.




sexta-feira, novembro 09, 2007

...

E limpa-se a casa velha...
Mesmo que na madrugada
a saudade ainda incendeie,
mudam-se os hábitos.
No silêncio arde a voz triste da alegria.
Aliás, o sorriso não vira gargalhada
quando as lembranças por acaso findam.
E quanto às porcelanas,
tão frágeis e sutis quanto as nuvens,
só resta a eterna sobrevivência dos retratos.




ausências e descompassos cardíacos
hoje fazendo falta.

sábado, novembro 03, 2007

ao erguer o olhar
paro em mim:
as nuvens caminham
lentamente
nesta imensidão azul.
e eu nem sinto mais pressa...
continuo a admirar
a tarde que se finda aqui:
um dia encontro
serenamente
o barulho que elas fizeram.

domingo, outubro 21, 2007

primeira vez outono

e quando a essência não muda
há ainda a luz do dia
a espera do conforto noturno

e enquanto a essência não mudar
faz-se ainda chama boa
pro descanso que ainda vem.




na primavera.

sábado, outubro 20, 2007

ouvi teus olhos na noite escura de vergonha:
entre as estrelas e meus pés, não vi mais nada
perto deste mal que não me apraz.



não mais.

sexta-feira, outubro 12, 2007

verso por verso

no sereno do meu quintal sinto o orvalho da tua noite
o meu cansaço sempre vai ser a minha melhor arma
e nada há nesta pele que acalme.
só a minha crença de que não pode haver
algo que se espera acontecer, onde mais posso sentir
já não importa. tenho mais de mim em mim do que possa aparentar
embora a dor que me acompanha hoje adormeça em nós.
sono. sonho. palavras não fazem a dor cessar.
soluço. lágrima. silêncios ainda ecoam e não cansam.
sóbrio e ébrio? jamais poderia ser ébrio,
mas há ainda embriaguez a nos afogar.
é melhor parar de preencher sóis e luas com lápis coloridos.
há um céu nublado esperando por você
um copo que embaça, um olho que naufraga e a voz que se abala
não tenho mais rimas ou vontade. já chega!




madrugada ebriamente sóbria. Andréa e eu.

sábado, outubro 06, 2007

ah, como eu queria um ser tão apaixonante
que naufraga em barris de nada sem fim
no calor das horas a triste rios...

seria doce abrir então os olhos
e mergulhar num chão frio
de memórias turvas incolores...

e as horas que se passam sem dormir?
- oh, dias quentes!
seria tão bom voltar a tê-los...

domingo, setembro 23, 2007

Segundo Setembro

Se todas tuas trocas, teus engodos,
enganos bobos e poemas
ainda fizessem algum sentido,
não escreveria assim, da forma que te digo,
mas com uma idéia levemente diferente
do que poderia ser perder.

Se todos os teus rabiscos, meus destroços,
perdidos pensamentos e falsos dilemas
nem quisessem andar unidos
jamais escreveríamos o que fingidos
meus enlouquecidos devaneios
se encontrariam talvez em teu ser.

Mas se no fim deste enredo
a noite cansada for o que me resta,
guardarei as manchas na roupa
e um tanto do cheiro de fumaça nos cabelos.
E se me encerro na quietude,
é que já não revelo o insondável.




[Andréa, eu e Manu... ontem.]

Três da tarde.


Compras num sábado após o banho. Dinheiro. Uma rápida visita e a companhia. O embarque. Trechos dos dias que lhes antecederam. A paisagem. Meia hora depois, a descida. Mais uma companhia. Na praça movimentada, três almas amigas. Vinho, queijo e trelelê. Uma faca na bolsa. Ajuda para abrir o vinho. Uma pedra. Momento neolítico. Quebra-se uma caneta. Acha-se um caderno. Passeios e fotografias para os outros. Livros e música para nós. Um poema. O sol prestes a se por. A vista para o mar. Da beira, silêncio. Um copo que derrama, uma canção que enlouquece. Há outras pessoas formando suas vidas. Somando somos mais três. Há também uma igreja. Rosas brancas e missa. Mais duas rosas para nós. O vinho perfuma as pétalas. O fogo e o botão. A caminho, uma carona. Um fusca azul. A guiar, um simpático senhor. A reviver, almas imersas em amor. Mais poesia e música. As rosas fazendo sucesso. Puras e bentas, vindas da igreja, agora passeiam em outra praça. O momento tarda enquanto existe. A hora se acalma e nos despede. E a noite nem finda ali.


Três na noite.

com efeito
cometo
meu medo
comendo
de novo
o confeito
do doce
acabado

o som é feito
do bobo
silêncio
-vazio perfeito
da massa
reduzida
ao bolo
assado.



não depende da vontade, já diria o Cortázar...

sábado, setembro 15, 2007

A qualidade dos defeitos

Quem sou eu sem os meus defeitos?
Cultivo-os, pois. Eles são mesmo mais importantes
Que qualquer qualidade que eu possa ter,
são eles que me afastam das pessoas,
E isso é bem mais relevante pra mim que os motivos pelas
quais, porventura, elas possam ser atraídas.

Quem sou eu com os meus defeitos?
Deserdo todos, então. De importantes
prefiro as desqualidades que eu já nem tenho mais,
as pessoas que já não me bastam
e os caminhos que se revelam para mim sem mais motivos
com mais pautas por pedir e degraus de mil graças.




[Andréa L. Costa/ Suhelen P. Aragão]
manhã de 13 de setembro.

quarta-feira, setembro 05, 2007

"oh minha honey..."

Uma pausa, então, para uma elegia. Tal como uma onda violenta num domingo ensolarado o desejo de ser flor na janela talvez um dia volte. Se fosse violeta, eu me elegeria. “Eu, que nunca fui morena,...”, era assim que começaria. Mas e eu, que sempre fui? Sempre fiquei. Só uma música repete no rádio. Começa agora sem pausas. O que me prendia outrora me libertou. Que a sintonia da prosa não mais me queira. E que isso não termine. Sem aplausos.



"sofrimento não é amargura
tristeza não é pecado
- lugar de ser feliz não é supermercado..."

Zeca Baleiro - Piercing

domingo, setembro 02, 2007

Naufrágio

Ilhas desertas ao longe
Navios cargueiros ao leste
Homens ao mar em navios

Navios ao mar com seus homens
Homens desertos e desolados
Ilhas cargueiras em silêncio

Homens cargueiros de saudades
Ilhas ao mar como ondas
Navios desertos de seus homens


[há algum tempo...]

domingo, agosto 26, 2007

não há medo na madrugada vazia.
na cabeceira não existe nenhum livro.
ao lado, uma canção amiga.

embaixo só há um colchão antigo.
nos meus olhos, a ingratidão perdida.
os vizinhos nem são meus conhecidos.

uma agonia que não se acalma,
uma cantoria que não termina
e acima a escuridão ainda vigia.

agora só há a recordação em vigília.

domingo, agosto 19, 2007

redemoinho

mente a ira
a mando disto

[fora um sim]


ilustre, mente
por aquilo

[passa o fim]


vou voltar ao início
por cima

de mim

domingo, agosto 12, 2007

-silêncio musical-
mais uma vez
a música me silencia.

domingo, agosto 05, 2007

atrás de todos os reflexos impossíveis uma luz.
um longo caminho e a beira da estrada.
a culpa do que não se sabia.
era um olhar: a falta da voz que se cala
e o brilho depois de um sonho aberto.
a ferida fecha.
o fim nem sempre belo
e a palavra brinca livre
independe do incerto infeliz.
e brada como a flor da tarde
que se põe em nós.
e tudo vinha sorrindo
ao dançar, para sempre
não fosse o despertar dessa agonia.
ao entardecer daqui a pouco
quando nossos pés mentem
sem mais estrelas
ao recolher de nossas paredes
a construção deste silêncio.

domingo, julho 22, 2007




a mosca que proseou na sopa agora nada presa

a presa que mosqueou na prosa agora tudo sopa

a prosa que nadou presa agora sopeia na mosca

a sopa presa que soprou a prosa foi embora e voltou.

terça-feira, julho 17, 2007

enfim, um buraco
um copo quebrado
no chão da sala
o vulto do silêncio
que já passou
bem no meio da janela...

palavras vazias
tatuadas num papel
rabiscos que jamais serão lidos de novo
voam como a poeira da estrada
perdem-se em qualquer rua
e voltam rasgadas como um olhar...

segunda-feira, julho 16, 2007

hoje o medo caminhou
pela avenida antiga
num enfeite estelar
que teimava em aparecer
com encanto discreto
ao lado de sua amiga
amarga a me pedir
na ternura de teus lábios
naquela noite esquecida
e no sono invadido
que os anjos que vagueiam
com a nossa canção
se calassem.


nestes cantos celestes
os suspiros a te adorar
pediam no teu olhar calado
mas que enche a alma
com riso e sem despeito
a tarde que não mais alivia
e que ali estavam a escutar
os velhos e sábios
parados na padaria da esquina
com um olhar que a sede não sacia
para que os anjos que passeiam
em nosso colchão
não dormissem.

sábado, junho 30, 2007

um dia passa para mim:

por cima
as horas e suas flores
caem.

a noite passa sem ti:

ao lado
as flores com suas cinzas
sobem.

agora passa por nós:

de fato
as cinzas sem suas horas
somem.

sábado, junho 23, 2007

O fino passo com que me guias
no campo de afetuoso alívio
é como o perfume reprimido
da mais perdida e fina flor

- sonhando, faz sorrir de alegria
dormindo, faz sonhar com o amor.

Se me espera a festa que em mim vive
ao som daquela voz a embalar
até o que há no fim de mim
brota em nós como o suave inverno
tal como a poesia que há em ti

em que meu destino se encontra em teu desatino
onde meus pés se perdem onde me prendes

porque nestes dias
as dores ressentidas sumiam
a tal alegria e a tua voz
era o que ouvia,
meus olhos agora
nem mais podiam
e as estrelas
[coitadas...]
de mim
se enchiam
porque estavas comigo...

terça-feira, junho 19, 2007

Sem sentido.
Com compasso.

Sem companhia.
Com sentimento.

Sem vazio.
Com cobertura.

Sem barulho.
Com zoada.

Sem mania.
Com arrelia.

Sem sono.
Com calor.

Sem sandália.
Com chinelo.

Sem silêncio.
Com calma.

Sentada.
Com queijo.

Sem pauta.
Complexo.

Sentado.
Completo.

sábado, junho 16, 2007

lamento
por ser
infantil

[pobre
loucura senil]

liberto a imagem

mas livre
eu penso
ainda
num dia
em voar
e voltar

[libertinagem]



*lindo passeio estudantil

Poema desnudo

A ânsia da origem corporal
Entre as paredes da introdução
Para cada coração partido
Uma verdade que se faça presente
Que se faça perceber
Um grande brado de liberdade.

sexta-feira, junho 15, 2007

à noite
amortece
enlouquece
anoitece
entorpece
[acontece...]

quarta-feira, junho 13, 2007

Um alarme!
Aqui temos entre nós
a expressão desmaiada.
As eternas almas sem repouso.
Oh, companheiros,
como foram belos estes dias!
Quão tristes foram, ainda que belos!
Mas tardaram a partir.
E se foram.
Para bem longe.
Para além de mim.

domingo, junho 10, 2007

gritos que solicito ao escuro
em silêncios de sonos

de letras em tempestade
no tamanho da pauta incalculável

meu lado sem lados
meu caminho alado

lado a lado comigo.

sábado, junho 09, 2007

só recolho o que me basta
e espalho tudo o que me falta
agora. e mais nada.

nesse olhar cheio de vazio
repleto de sentido
sempre sem mim.

desde já.

e ainda nem sobrou...
mas a janela vai ficar aberta.

quinta-feira, junho 07, 2007

Olhai as rosas musicais
nas praças levemente erguidas,
cantai como ecos inteligíveis
pelas ruas da cidade antiga!
Como fosse possível tanta alegria
esse desejo agora concebido
vai fazer brotar no chão
a pausa da clareza vespertina.
O amor, a morte ou o amargo calor
hoje soarão pelas ladeiras cristalinas
e embora esse desejo esteja envelhecido
há um esforço pelo sutil encontro.
Não demorará a hora de acordar
e por mais flores que surjam
os tempos tristes ficarão por lá
sem trocar aquilo que nos traz aqui.
Dançai! Porque a música inaladora não pode parar.


Pelo menos hoje não.

quarta-feira, junho 06, 2007

surgiu, então, um dia
comigo
a notícia das horas e suas cinzas
das nuvens sem qualquer aviso
do caminho que já vai sendo
do sopro da brasa fria
do pranto das sereias perdidas
dos muros quebrados e estáticos
dos gestos entre as paredes
da pálida angústia cotidiana.

era a hora do grito.

cansado
e rumo ao nada
permaneceu sozinho...


o caminho vai sendo
e sempre comigo.

sexta-feira, maio 11, 2007

meu nada
mudo
mundano
de nada
me vale
domada
me calo
não valho
por tudo
de que
me paga
aviso:
findo
o fato.




a última parte que não tinha. hoje.

quarta-feira, maio 09, 2007

Sem mais palavras, me calo
e não nego os sinais que desaparecem.
No fim da noite, então, me apego.
No teu ouvido, seria doce o sossego,
sem as badaladas dos sinos que entorpecem
e que recolhem da canção assustada
a chuva na madrugada suave,
em que o orvalho abraça de leve tua pétala,
onde tua melodia grave fala no barulho da água.


[o amor renasceria ali, acalentado pela chuva
vivo na madrugada
mas preferiu não despertar de um sono antigo]


Com mais ruídos, exalo
e agora sim, sonego o que te assegura.
Sai o dia, corro sem minhas pernas,
Vou antes que fique tarde, logo cedo...
E sobe a balada na catedral mais próxima,
vibra a sinfonia triste do fim, agora mais próximo,
cantam os rumores do que virá a acabar.
Já não tardaria a gelada angústia engolida
a desabar pelas ruas solenemente.


[o amor jazeria ali, sem sol e sem chuva
num dia nublado
mas escolheu partir, ainda que sonhando...]

quarta-feira, maio 02, 2007

só o silêncio me bastaria
agora
chega dessa zoada toda
agora
essa agonia podia passar
agora
embaixo da escada escondo
agora
vou voltar de onde vim
agora
terminar seria bom
depois



(...)
Um corpo infantil olha diretamente ao céu.
Nublado.

Fantasiava os prazeres de lá.
Mas havia um abismo.
Impuro e insatisfeito.
Uma pausa.

Cansa-lhe a espera de algo que não acontece.
Entre o abismo e o crepúsculo, nada lhe faz despertar.
Nada há que se salve.
Nada há que se guarde.
Nada.

Intimamente reconhece a essência da realidade.
A vista até que é boa.
Uma chance.

O perfume é áspero.
Alto, distante e indiferente.
O tempo é o mesmo.

E tudo se apaga.
Nem tudo se acaba.

E quanto a mim?
Só corro.

Socorro!

POEMA SEM COR

a doce voz de Teu caminhar noturno
renasce com todo o encanto
(a quem me dedica essa cor)

a vida se alaga em palavras coloridas
(a calmaria desce em Teu sorriso protegido)

e embora caia a chuva
Tu ainda estás aqui
(acalmaria agora falar de Ti)

todas as tonalidades agora servem
se meu recanto servir em Ti como um descanso

(num bloco sem pautas
errei o tom sobre a alegria)

Linhas vermelhas

Então dos dedos surge a água
tal como a sombra que esvazia
a margem negra desta mágoa
se faz passado quem podia
com um rio apagar este caminho
de palavras soltas e socorria
o tempo, a voz, a ruga, o nada
de abismos sanguíneos e secos
em que a lembrança amassa e acaba.
As mãos
[leves rios]
correm soltas,
trocam laços,
[fortes sonhos]
saem loucas
a colher flores,
comem alto
e se acabam
num abraço.



[o começo. onde se acabam.]
solto sobe sem sentido
da sua sede sai o seco som
sempre segue seu sorriso
(se o sono sozinho lhe seguisse)
preso perde seu pedido
por pouco não procura a pista
passa perto e pode parar
pela porta podre se pedisse:
"desce, deixa dúvidas e dança
dorme se der debaixo das doze."
diante disso, deixou às dez
o dono de duas dolorosas doses
mas mente muito mal...

terça-feira, março 20, 2007

o casal

trechos de músicas sem nenhuma esperança
luzes das velas que insistem em apagar

cacos de vidros expostos nas calçadas
trocas de horário pelo dia incerto

pedaços de papel rasgados na sacola
letras de poemas que nunca serão lidos

retalhos da lembrança que foram embora
falhas de vestido que cobriam a nudez fingida

De quase um poema

num canto qualquer
era quase uma noite

e foi numa tarde clara

da satisfação quase rara
louvava a vida

sem perceber que ia mal
de todos os cantos
a palavra quase lhe fugiu

durou certo tempo
e sabia que não tardaria
mas quase nunca falou

da sua boca nunca se ouviu

porém ele lembrava
que tinha ainda um quintal

quase deu fim ao que escreveu
e enfim pôs-se morte no que fez

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Escuta o barulho da chuva
e pensa que ela cai pro teu consolo

Se estiver alto,
feche os olhos e lembra dela

Mas se tiver bem baixinho
silencia teu coração



[porque ninguém consegue (mesmo!) impedir que a chuva caia.]

CASAMENTO

do silêncio dos olhos em que confessa
um longo tempo conversa

minto
de longo e de terno
no momento eterno

meio sem tempo
nem tão longe

era terno
e era longo aquele instante

um momento:
disse sim

e nem para sempre durou
quero um vaso de mel, por favor
para todos os dias amargos

quero um laço de cetim
para tudo que estiver desamarrado

quero ainda uma bola, de qualquer cor
só para não precisar de alguns afagos

quero também uma canção
que não me faça lembrar do que perdi

e uma noite estrelada
[para não dizer que pedi pouco].

terça-feira, janeiro 30, 2007

Deitava sobre as almofadas alaranjadas. Vazio de estrelas, cores e perfumes. Verde. Como aquela manga.

Os cotovelos já nem doíam tanto. Nenhum neologismo lhe surgia. Transparente observava um galho se equilibrar. A mão solta bate na mesa. Silêncio. Tensos torpores adormecem.

No embaçar dos olhos, o vidro da mesinha refletia o papel. O lápis aponta para o céu. Pensou.

Enquanto isso, da caixinha saía um som desconhecido. Não se agrada com a música nova. A fome quer aparecer nas entranhas férteis do que surge. Com o susto a ponta do lápis quebrou. Onde estaria o pincel? Não dá corda. Som baixo. Sem silêncio.

As cartas rasgadas não serviriam. Queima. O passado agora compõe concretas cinzas. Só sobrou a memória. E não há saída. Some. Conta como se acordasse agora.

A corda se partiu.

Na hora exata.
dirigia a palavra a ti,
calava tua voz a mim
e nada mais se ouviu.

só, a vaga luz sorriu.


[que do vinho que te embebeda
saia a noite que te veste
e cubra de risos o que me destes]

sábado, janeiro 13, 2007

Pequena criança linda
Que fala com os sonhos e brinca nas ruas
Corre aqui do meu lado e me alcança
Porque ainda sinto as risadas tuas.

Volta, menina amada!
Pega os teus brinquedos perdidos!
Estavam todos te esperando
(e eu achei só os que estavam escondidos).

Não dorme, oh, doce amiga!
Viva então o calor da noite densa,
Dança ao som que te embala
E antes de acordar, somente pensa.
um lençol cobria os sonhos
e escondia os rostos
unia o que estava ao lado
com o que não aparecia
desenhava as formas
que se equilibravam ali embaixo
acalentava os corpos
ainda assim aquecidos
e apagava os fingimentos
que ferem e magoam

(mas era fininho demais...)
deformas infundadas dores
de formas transversais e ambíguas

fosse verde, iria nas folhas caídas
mas foi-se embora no andar que rasteja

agora ficou aqui do meu lado
a hora da partida em que encontramos

os passos coloridos que deixaram de ser opacos
e que virão a esconder o que nem todos viram.