sábado, setembro 23, 2006

Ontem eu ia recitar algo,

mas faltou coragem...

Hoje eu ia plantar algo,

mas faltou chão...

Não!

Faltou ele...

Do muro nasceu a árvore
das balas vive o vendedor
das cascas fez-se o chá
das chagas tem-se a dor
das perdas foi-se a morte
da poesia o trovador
do medo rompeu-se o silêncio
das letras tirei a cor
dos filmes no cinema
e das fraquezas
vou me recompor...
com os rabiscos
com meus riscos
e sem rascunho pra compor.
As salas vazias
o corredor deserto
tu me vias
e eu tão perto
tu sorrias
e eu esperto
te dizia
que a sala ao lado
está vazia.

Posso perder o pudor
sem perder o poder
pecar por perceber
pequenas partes do que sou
procurar sem padecer
aos principais meios da dor
posso até empalidecer
quando nada parecer
pertencer a mim
e perceber que perdi
a fé ou o juízo
mesmo que em mim
penetrem a piedade e a paz
só não posso perder
o principal motivo
que me permite pensar em escrever
e escrever sem pensar...

só se sendo...

ser amado
sendo som
sem o sono
e sem a sede

sem semente
sendo terno
ser eterno
e sem o terno

sendo ausente
ser somente
só o som
sem se ser

ser se sou
só e ausente
sou e sim
sendo assim...


seguia meu rumo
e me perdia no mato
de tanta tristeza
reclamava do que me levava
e em cima da carroça
lembrava do velho prato
que vazio me esperava
era tanta desgraça
que até o jumento chorava
nada mais eu via
e olhando pra mim mesmo concluía:
um dia ainda me mato...
Perdi-me por um minuto
em que li algumas linhas
escritas numa página
vagando na lembrança
de um livro perdido.

Lá encontrei a vaidade
contemplando o sorriso
que chorava por causa da fome
alimentada pela perda
daquilo que sempre buscava.

E agora ouço as letras
dos murmúrios repentinos
resistindo aos gritos registrados
naquela página perdida
onde caminham vagas palavras...

É apenas outro dia.
Os boatos clamam
por palavras que falam

no doce espetáculo
onde caretas divertem
e máscaras escondem

no gracioso obstáculo
os gritos já não sofrem
e os rumores comovem

na noite em que via
os artistas que brindavam
caricatos e encantavam

na festa em que insolentes
alegravam os corações.
Lá se foi outro dia...

sexta-feira, setembro 22, 2006

"Segundo"

Desço contente a larga escadaria
pisando cada degrau com cuidado
e percebo que a benção vem do lado
em que eu confiante me escondia.

No caminho reencontro a alegria.
Tão pura e tão linda, ela tem me olhado.
Então, deitado em seu colo aconchegado,
descanso a sorrir com ironia.

Mesmo que num descuido, aquela magia,
por mais que tivesse me abandonado
não conseguia me deixar conformado.

Foi quando do último degrau eu via
subir quem jamais tinha esperado.
O anjo foi e me deixou acordado.


(11/05/2006)

quarta-feira, setembro 20, 2006

PRIMEIRO

Quisera eu torná-lo cúmplice e parceiro
acompanhá-lo como passam os dias
decifrar em sua voz palavras macias
e fazer com que o dia não passasse ligeiro

Pudera ele achar que os restos no cinzeiro
não apagam a lembrança do pulsar
caloroso nas mãos que conseguem alimentar
o instante que infelizmente é passageiro

Mas na ânsia de que tudo fique rotineiro
não posso perder a lucidez e acreditar
que nada daquilo pode ser verdadeiro

e assim como o brilho do mês de fevereiro
carnavalizo tais idéias e chego a pensar:
"quem me dera trepar o tempo inteiro..."

(06/05/2006)

sexta-feira, setembro 15, 2006

Talvez não dure um abraço este sorriso
ou não valha um botão este buraco.
Talvez não reencontre quem partiu
ou não sinta que perdi o que ganhei.
Talvez não veja música ou escute a fotografia
ou não troque a sandália por sapato.
Talvez não esconda da verdade esta mentira
ou não afogue na poça esta mágoa.
Mas do pouco que disso tudo me restar
talvez não consiga achar razão alguma... talvez...

quinta-feira, setembro 14, 2006

entre as maravilhas mórbidas
lidas num jornal
existe uma luz

(estaria entre o melhor dos tolos
ou no pior dos sábios?
ledo engano!)

raspo as tintas com que pintaram
meus sentidos
rasgo as roupas em que puseram
meus pedaços
sujos e quebrados

reencontro minha preocupação perdida
(poderia morrer agora entre rosas
e ninguém me encontraria!)

meus desejos não convencem.
esqueçam as pétalas.
voltemos aos papéis.

terça-feira, setembro 12, 2006

A voz afiada
desafina.
A faca amolada
recorta.
A doce esperança
conforta.
A face noturna
reclina.
A louca menina
se agita.
A sábia senhora
se cala.
A porta da casa
se abre.
O silêncio da noite
me embala.

domingo, setembro 10, 2006

rosas regadas
sombras inquietas
árvores perenes
dos deuses.
as dores respondem:
silêncio!

rosas se aquietam
sombras perecem
árvores ressecam.
os demônios
perguntam insones:
festa?

quinta-feira, setembro 07, 2006

repousa um segredo
nas coisas não ditas

buracos no percurso
não inibem o apito do trem

e os flagelos soltos nos trilhos
assustam mais que os andarilhos

talvez todo esse medo
seja por pessoas malditas

intrusas como num discurso
em que se perde tudo o que tem

pobres vagões! na viagem de teus filhos
só não esqueçam os meus dedilhos...

sábado, setembro 02, 2006

o peso do som

o vulto sacode
o terror do abandono
sobe
e sente sono
nasce
e sempre morre
o melhor
passa
procuro e não volta

a fé alimenta
e consome
mas o erro
não some
e volta por não crer
que mudou
incerto foi
e voltou

desgarrado do que sente
senta
ao longe a vida
dorme
e ao despertar trouxe
no trago
a dormência mórbida dos calafrios tragados
ausentes

sexta-feira, setembro 01, 2006

A estante repleta de livros
Corresponde a tudo o que deveria saber.
Conhecer. Ou melhor: fazer.

A ilusória claridade de idéias
Corresponde a luz que vem de outra fonte.
Lua. Ou melhor: sol.

A satisfatória sensação de alívio
Corresponde ao momento que não volta.
Falar. Ou melhor: calar.

A insinuante maneira de olhar
Corresponde ao desejo de sair logo dali.
Cair. Melhor: levantar.